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“Intolerância religiosa não é liberdade de expressão”, ressalta líder da mesquita de Foz do Iguaçu

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A fala do Sheikh Oussama El Zahed aconteceu durante o Fórum Nacional Inter-Religioso de Combate à Intolerância.

O evento foi realizado no domingo, 29 de março, na Mesquita Omar Ibn Al-khattab, em Foz do Iguaçu. Um espaço simbólico, um templo religioso, cultural e turístico no coração da região trinacional. No encontro, líderes religiosos, autoridades e membros de diversas comunidades, compartilharão reflexões, experiências e caminhos para uma convivência mais respeitosa. Um convite à escuta, ao diálogo entre diferentes crenças e tendo como base a diversidade e a tolerância, alicerces para a construção da paz. 

Sheikh Oussama El Zahed, líder religioso da mesquita de Foz do Iguaçu destaca a responsabilidade das lideranças no combate ao preconceito e à intolerância.

“É uma grande honra receber este público neste momento abençoado.  Um assunto muito importante. Intolerância religiosa não é liberdade de expressão. Todos os líderes religiosos têm responsabilidade de carregar esta bandeira da convivência, da paz, da harmonia e do amor entre as pessoas”. 

Sheikh Jihad Hammadeh, conselheiro religioso da Associação Nacional de Juristas Islâmicos (ANAJI) e vice-presidente da União Nacional das Entidades Islâmicas (UNI) foi um dos palestrantes. Ele ressalta que a construção da paz começa com o respeito ao outro e em pequenas ações.

“O diálogo inter-religioso, antes de unir os corpos, une as almas e os pensamentos em torno de algo que é convergente. O outro, mesmo pensando diferente, assim como eu, merece respeito e dignidade. E mesmo discordando e não sendo na mesma crença. Devemos preservar e divulgar estes valores. As pessoas estão se desconhecendo e desconstruindo pontes. A religião veio para construir pontes. É uma questão de mentalidade”.  

Eliseu Rocha, assessor da Governadoria do Estado do Paraná e coordenador do Comitê Interinstitucional do Turismo Religioso do Paraná, prestigiou o evento.

“Um momento único e mostra que o que importa é o diálogo. Conhecendo e respeitando nós acabamos com as divisões e a intolerância religiosa”. 

Para Laysmara Carneiro Edoardo, presidente do Conselho Estadual de Povos e Comunidades Tradicionais (CEPCT/PR), o encontro é um espaço democrático para demonstrar práticas irmãs, cada qual na sua liturgia.

“O reconhecimento de imigrantes, de povos tradicionais é a garantia da continuidade e da existência da nossa própria cultura e potencialidades. Estamos com questões de disputa de combustível, de território, a ausência de garantia de soberania de diversos países e isto impacta na manutenção de culturas”. 

Edoardo lembra que o Brasil continua sendo o país com o maior número absoluto de católicos no mundo, porém com uma diversidade religiosa, um mosaico histórico formado pelo encontro de tradições resultando em sincretismo e pluralidade cultural.

“Temos diversas práticas religiosas que precisam estar em condições de igualdade, as que são preponderantes.  E o evento acontecer na mesquita, é uma demarcação desta relação.  As práticas tradicionais são práticas de construção de identidade. Preservar o direito à liberdade religiosa é preservar uma identidade cultural milenar. Somente as religiões de matriz africana, no Brasil, têm 400 anos. O que prejudica isso, prejudica a nossa existência enquanto sujeitos plenos”. 

Sara Izabel, representante do Ilê Baru, ponto de promoção da cultura de matriz africana litúrgicas do candomblé e da umbanda, lembra que o preconceito surge da falta de conhecimento e do não acesso à informação.

“Querendo ou não, nós vivemos em cidades preconceituosas. As religiões afro, outras religiões como o Islam, comunidades indígenas, qualquer coisa que foge do padrão sofre preconceito. Ter um espaço para ouvir os mais velhos é fundamental. Carregamos esta pauta de combate ao preconceito da bandeira da nossa Yalorichá, a Mãe Edna de Baru”. 

Sheikh Mohamed Khalil, líder religioso da Sociedade Beneficente Islâmica de Foz do Iguaçu, destaca a necessidade de que os líderes mundiais trabalhem no combate ao ódio e estimulem discursos de respeito, tolerância e diversidade.

“Este evento é um passo abençoado. Cada autoridade que está aqui representa e transmite para seu povo. Precisamos que o ódio seja combatido e tenhamos um discurso sério, de misericórdia e tolerância e não ficar somente no verbal.   Temos que praticar isso e transmitir para o próximo. O Islam foi fundado para criar um mundo de paz, sempre em nome de Deus o Clemente e o Misericordioso”. Khalil lembra a quão simbólica é a realização do encontro na Mesquita Omar Ibn Al-Khattab. “Seja na mesquita, na igreja, templos, na sinagoga, os líderes têm que trabalhar. Eles são a influência cultural e espiritual que penetra no coração dos seguidores”.  

Para o Bispo Diocesano de Foz do Iguaçu (PR), Dom Sergio de Deus Borges, mestre em Direito Canônico e atuante na liderança pastoral da Tríplice Fronteira, a realização do evento na região é um diferencial. Uma cidade com mais de 80 etnias, com um processo importante de integração.

“Precisamos trabalhar pela integração, respeito e diálogo entre as várias comunidades religiosas em Foz e no Brasil. Em Foz do Iguaçu, de maneira muito especial, considerando as várias tradições e culturas, as várias etnias. Quando se trabalha contra a intolerância, buscamos o diálogo fraterno e o respeito aos valores e modos de cada um. Deus é um só”.  

Cultura de Paz 

A construção de uma cultura de paz é vista como um processo contínuo baseado no respeito, na empatia e no diálogo. Questões fundamentais para transformar conflitos e promover a justiça social. Passa também pelo reconhecimento da dignidade humana, a valorização da diversidade e a rejeição de qualquer forma de violência. Um compromisso de abandonar atitudes violentas de natureza física, psicológica, verbal e moral.  

Para o Pastor Gilson Alcantara, presidente do Conselho de Pastores e Ministros Evangélicos de Foz do Iguaçu (COPEFI), a construção da paz passa pelo respeito mútuo, empatia e diálogo.

“Conhecer um pouco mais da cultura do outro e poder levar para as igrejas e alavancar o respeito. Uma educação mais incisiva partindo dos líderes religiosos. Não impor o que você julga ter por norte de fé”.  

Representantes da Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu e da comunidade árabe regional, os vereadores, Anice Gazzaoui e Adnan El Sayed estiveram presentes e destacaram a necessidade do combate à intolerância como um processo de luta contra à desinformação e uma busca por ações concretas.

“Hoje temos guerra no Oriente Médio. A desinformação com relação ao outro, outros países e religiões. As pessoas criam raiva umas das outras pelas diferenças. As diferenças não existem. Existem as diferenças nas semelhanças. Devemos respeitar a individualidade, a fé e a nacionalidade do outro. Somos todos seres humanos. A união, a aproximação entre as diferentes religiões, é a única solução para qualquer tipo de ignorância, distância e preconceito entre elas”, conclui El Sayed.  

Gazzaoui destaca a necessidade de políticas públicas concretas que funcionem com ações planejadas e implementadas na solução do problema coletivo e na garantia dos direitos constitucionais.

“Estamos vivenciando vários casos de ataques às religiões, nenhuma está livre da intolerância. Buscamos políticas públicas concretas para acabar com este mal que tem assolado nossa comunidade e todo Brasil. Avançamos, mas o caminho é longo a percorrer. Estamos unidos em prol do combate à intolerância religiosa”.  

Dra. Jamila Hussein, advogada, diretora social da Associação Nacional de Juristas Islâmicos (ANAJI), membro da Comissão Inter-religiosa de Juristas e do Grupo Inter-religioso Diálogo e Paz, ressalta que a discordância pode existir, mas não o desrespeito ao outro.

“No Brasil temos leis, mas muitos desconhecem e falta efetividade real na vida das pessoas. Que estas leis sejam colocadas em prática. Quando falamos de conscientização, falamos de diálogo e de respeito”.  

Carta Compromisso  

Ao final do evento, representantes assinaram uma Carta Compromisso que foi encaminhada para a Câmara Municipal de Foz do Iguaçu, um acordo de convivência entre os povos e de combate à intolerância. 

Leia também: Mesquita de Foz é destaque em evento de turismo religioso.

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