Trabalho pode subsidiar diretrizes para o planejamento urbano e o desenvolvimento de soluções mais adequadas às condições climáticas da região
Quase 20 mil pessoas utilizam o transporte coletivo diariamente em Foz do Iguaçu, aponta o Censo do IBGE. E um dos desafios enfrentados por essa população é o clima da cidade, marcado por extremos tanto no frio quanto no calor. Nos pontos de ônibus, a sensação térmica pode ser ainda mais intensa, oferecendo perigo à saúde das pessoas. É o que aponta a pesquisa “Conforto Térmico em Pontos de Ônibus: Estratégias Bioclimáticas para Clima Subtropical Úmido”, realizada por Guilherme Mella dos Santos, no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Civil da UNILA.
O pesquisador, orientado pelo docente Egon Vettorazzi e coorientado por António Figueiredo, percorreu a cidade fotografando e catalogando os diferentes modelos de pontos de ônibus existentes. De acordo com Guilherme Mella dos Santos, a cidade tem mais de 1.200 pontos cadastrados, dos quais a pesquisa identificou 16 tipos distintos, agrupados em seis categorias conforme a sua estrutura física – com ou sem cobertura, com fechamentos laterais, climatizados, entre outros. E a conclusão é preocupante: “os pontos de ônibus de Foz do Iguaçu são desconfortáveis e fazem mal à saúde de quem espera o ônibus. As medições registraram temperaturas muito altas nas superfícies dos abrigos e do entorno, como 70° C no asfalto, 60° C na calçada e quase 60° C na cobertura dos pontos. São temperaturas que representam risco real à saúde das pessoas”, ressalta.
Medições
A pesquisa combinou três formas de investigação: a primeira foi a medição direta nos pontos de ônibus. O pesquisador instalou equipamentos que registravam, a cada dez minutos, a temperatura do ar e a umidade dentro e fora dos abrigos. Uma câmera termográfica foi usada para medir a temperatura das superfícies, como o chão, as paredes e a cobertura dos pontos. As medições foram feitas em dezembro de 2025, em diferentes horários do dia.
A segunda foi um questionário respondido pelos próprios usuários. Entre agosto e outubro do ano passado, 96 pessoas que usam o transporte público em Foz do Iguaçu responderam perguntas sobre como se sentem nos pontos de ônibus, o que percebem de calor ou frio, e o que avaliam como faltando na estrutura dos abrigos.
A terceira foi a simulação por computador. Usando um software chamado ENVI-met, foram criados modelos digitais dos pontos de ônibus e do seu entorno, e testadas virtualmente diferentes configurações de rua, pavimentação, vegetação e edificações, para entender o que mais influencia no calor sentido por quem está esperando o ônibus. Essa combinação de métodos conferiu ao pesquisador uma sólida base de dados para o estudo.
Os problemas
Os principais problemas encontrados foram o uso de materiais inadequados que acumulam muito calor nas coberturas e pisos, a falta de sombra tanto nos pontos quanto nas calçadas ao redor, a ausência de ventilação adequada e a falta de árvores no entorno. “Os próprios usuários também apontaram, no questionário, a sujeira e a falta de manutenção como problemas sérios. Mais da metade dos participantes disse sentir muito calor no verão e muito frio no inverno enquanto espera o ônibus”, relata Santos.

Soluções
Com base nos dados coletados, a pesquisa propõe melhorias simples e de baixo custo que poderiam ser implementadas com vistas à qualificação desses espaços. “Com o aumento das temperaturas urbanas, causado tanto pelas mudanças climáticas quanto pela forma como as cidades são construídas, com muitas superfícies que acumulam calor e pouca vegetação, é necessário pensar de que formas os pontos de ônibus podem ajudar a reduzir a exposição ao calor. Isso contribuiria para diminuir o cansaço físico, melhorar o bem-estar durante a espera e incentivar o uso do transporte público”, aponta o orientador do estudo, Egon Vettorazzi.
Para resolver esses problemas, a pesquisa desenvolveu dois novos modelos de ponto de ônibus, adaptados ao clima subtropical úmido de Foz do Iguaçu. Um deles é voltado para pontos de ônibus posicionados no sentido Leste/Oeste e tem fechamento frontal parcial para permitir mais sombreamento nas primeiras e últimas horas do dia, quando há mais incidência solar nessas orientações. O outro é para pontos no sentido Norte/Sul e tem a fachada frontal completamente aberta para favorecer a circulação do ar.
As duas propostas compartilham soluções como cobertura com vegetação (telhado verde), plantio de árvores nativas ao lado do ponto, uso de pavimentação clara no piso do entorno e fechamentos laterais em vidro para proteger das chuvas. Essas escolhas, juntas, reduziriam em até 6° C a temperatura dentro dos abrigos. “O índice internacional de estresse térmico (chamado UTCI) também melhorou nos dois modelos propostos”, detalha Guilherme Santos.

Cruzamento de estudos
Em 2024, um outro estudo da UNILA já havia identificado, entre outras questões, os problemas relativos à falta de conforto térmico nos pontos de ônibus de Foz do Iguaçu. O relatório técnico “Pesquisa Origem-Destino Ampliada como Subsídio para Estudo Diagnóstico sobre o Transporte Coletivo em Foz do Iguaçu”, elaborado pelo Grupo de Pesquisa em Mobilidade e Matriz Energética (GPMME) da UNILA, indica que as condições dos pontos de ônibus estão entre os principais problemas do sistema na cidade.
O levantamento, baseado em 500 questionários e análises de campo realizadas em 2024, identificou falhas recorrentes na infraestrutura desses espaços, como falta de cobertura adequada, pouca proteção contra chuva e sol, além de situações de desconforto térmico. Durante a pesquisa, também foram registrados casos de pontos alagados, estruturas sem manutenção e locais onde os usuários evitam permanecer devido ao calor excessivo, buscando sombra fora dos abrigos. As observações dialogam diretamente com a pesquisa de mestrado de Guilherme Santos.
De acordo com o coordenador do GPMME, Ricardo Hartmann, a qualidade dos pontos de ônibus é um fator central para o funcionamento do sistema, especialmente em cidades com temperaturas elevadas como Foz do Iguaçu. “Os pontos de ônibus são parte fundamental do sistema. As pessoas precisam de proteção contra sol, chuva e calor. Na nossa pesquisa, uma das principais reclamações foi justamente a precariedade desses espaços, que muitas vezes não oferecem condições adequadas de espera”, afirma.
O diagnóstico aponta que a melhoria das condições físicas e ambientais dos pontos de ônibus é um elemento estratégico para qualificar o transporte coletivo e torná-lo mais atrativo para a população. De acordo com o professor Egon Vettorazzi, que também participou da elaboração do relatório técnico do GPMME, a ideia agora é construir protótipos dos pontos de ônibus propostos, para que possam ser apresentados à Prefeitura de Foz do Iguaçu no intuito de auxiliar na construção de soluções para os problemas da cidade.
Contribuição científica
Vettorazzi destaca, ainda, que trabalhos como estes vão além da cidade, ajudando a preencher também uma importante lacuna científica. “A produção científica brasileira sobre conforto térmico em pontos de ônibus ainda é limitada. Em um levantamento com 154 artigos publicados no mundo sobre o tema, apenas dois eram do Brasil, o que evidencia uma lacuna importante, especialmente em um país de clima predominantemente quente e com grande dependência do transporte público”, completa.
